Por Elisangela Machieski · Investigadora de Child2Rule
Cada vez que cuento que investigo cartas escritas por niños y niñas, la misma pregunta suele aparecer entre colegas historiadores y historiadoras:
¿Pero esas cartas no estaban manipuladas por los adultos?
Es una pregunta importante. Muchas de las cartas que estudio fueron escritas en la escuela, durante campañas organizadas por los propios regímenes o con el incentivo de maestros u otras instituciones. Negarlo sería desconocer el contexto en el que fueron producidas. Pero siempre me pregunto si la pregunta no debería formularse de otra manera.
Hace algún tiempo, una colega historiadora argentina, al hablar de ese tema, compartió conmigo un recuerdo de su infancia. Durante la Guerra de las Malvinas, escribió una carta destinada a un soldado. La primera nació por iniciativa de la escuela o tal vez de esa propaganda. Sin embargo, la historia no terminó allí. Ella decidió seguir escribiendo otras cartas y las colocaba, por iniciativa propia, dentro de las cajas con ropa de abrigo que eran enviadas a los combatientes.
Ese recuerdo me hizo pensar en la escalera de participación de Roger Hart. Entre la manipulación y la participación infantil existe un amplio abanico de posibilidades. Ni toda acción propuesta por un adulto implica ausencia de agencia. Tampoco, una iniciativa infantil surge en un vacío, libre de influencias.
Quizá el desafío para quienes investigamos la infancia no sea decidir si una carta es auténtica o manipulada, sino comprender cómo se construyen esas formas de participación, qué márgenes de decisión tuvieron los niños y niñas y cómo resignificaron propuestas que, muchas veces, nacieron a partir de los adultos.
Las cartas son resultado de relaciones, negociaciones, aprendizajes y decisiones que vale la pena observar con atención. Tal vez la pregunta sea:
¿Qué hicieron los niños y las niñas con esa oportunidad de escribir?
#1 – Notas à margem: Uma carta deixa de ser de uma criança só porque foi sugerida por um adulto?
Sempre que menciono que estou pesquisando cartas escritas por crianças, a mesma pergunta costuma surgir entre meus colegas historiadores:
Mas essas cartas não foram manipuladas por adultos?
É uma questão importante. Muitas das cartas que estudo foram escritas na escola, durante campanhas organizadas pelos próprios regimes, ou com o incentivo de professores ou outras instituições. Negar isso seria ignorar o contexto em que foram produzidas. Mas sempre me pergunto se a pergunta não deveria ser formulada de outra maneira.
Há algum tempo, uma colega historiadora argentina, ao discutirmos esse assunto, compartilhou comigo uma lembrança da infância. Durante a Guerra das Malvinas, ela escreveu uma carta para um soldado. A primeira foi motivada pela escola ou talvez pela propaganda. No entanto, a história não terminou aí. Ela decidiu continuar escrevendo outras cartas e, por iniciativa própria, as colocou dentro das caixas de roupas quentes que estavam sendo enviadas aos combatentes.
Essa lembrança me fez pensar na escada da participação de Roger Hart. Entre a manipulação e a participação infantil existe um amplo leque de possibilidades. Nem toda ação proposta por um adulto implica falta de autonomia. Tampouco a iniciativa de uma criança surge no vácuo, livre de influências.
Talvez o desafio para nós, que investigamos a infância, não seja decidir se uma carta é autêntica ou manipulada, mas sim compreender como essas formas de participação são construídas, quais eram as margens de decisão das crianças e como elas reinterpretavam propostas que, muitas vezes, partiam de adultos.
As cartas são o resultado de relacionamentos, negociações, aprendizados e decisões que merecem ser examinadas com atenção. Talvez a pergunta seja:
O que os meninos e as meninas fizeram com essa oportunidade de escrever?
#1 – Side notes: Does a letter cease to be from a child just because it was suggested by an adult?
Every time I say I researchletters written by boys and girls, the same question arises among fellow historians:
But these letters weren’t manipulated by adults?
It’s an important question. Many of the letters I’ve studied were written in the school, during campaigns organized by the regimes themselves or with the encouragement of teachers or other institutions. To deny it would be to ignore the context in which they were produced. But I always wonder if the question shouldn’t be formulated any other way.
Some time ago, a fellow Argentine historian, when talking about this topic, shared with me a memory of her childhood. During the Malvinas War, he wrote a letter addressed to a soldier. The first nation was initiated by the school or perhaps by this propaganda. However, the story doesn’t end there. She decided to continue writing other letters and placed them, on her own initiative, inside boxes with shelter clothes that were sent to the combatants.
I remember thinking about Roger Hart’s participation ladder. Between manipulation and child participation there is a wide range of possibilities. Not every action proposed by an adult implies the absence of agency. Also, a children’s initiative appears in a vacuum, free from influence.
Perhaps the challenge for those who investigate childhood is not to decide whether a letter is authentic or manipulated, but to understand how to construct these forms of participation, which are the margins of decision that affect children and children and how to resignify proposals that, many times, come from adults.
These letters are the result of relationships, negotiations, learning and decisions that are worth observing carefully. Maybe the question is:
What did children and girls do with this opportunity to write?



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